| A EMOÇÃO DO ESPAÇO |
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ALLEN JONES . ANDREU ALFARO . ANGEL FERRANT . ANTHONY CARO
ANTONI CLAVÉ . ANTONIO LÓPEZ . APEL LES FENOSA . AUGUSTE RODIN
BALTASAR LOBO . BERNARDÍ ROIG . CARMEN LAFFÓN . EDGAR NEGRET
EDUARDO ARROYO . EDUARDO CHILLIDA . GERARDO RUEDA . GUSTAVO TORNER
HENRI LAURENS . HENRY MOORE . JACQUES LIPCHITZ . JOAN MIRÓ . JORGE OTEIZA
JULIO GONZÁLEZ . LYNN CHADWICK . MAGDALENA ABAKANOWICZ . MAN RAY
MANOLO HUGUÉ . MANOLO VALDÉS . MANUEL HERNÁNDEZ MOMPÓ . MARTÍN CHIRINO
MAX ERNST . MIQUEL BARCELÓ . ÓSCAR DOMÍNGUEZ . OSSIP ZADKINE
PABLO GARGALLO . PABLO SERRANO . STEPHAN BALKENHOL . SUSANA SOLANO
A Emoção do Espaço
Escultura de nomes maiores das artes plásticas do inicio do século XX até à atualidade: o Centro Cultural de Cascais volta a apostar numa grande exposição internacional, seguindo uma linha de programação que procura trazer para Portugal o melhor que acontece lá fora. "A Emoção do Espaço" exibe obras de Auguste Rodin, Man Ray, Joan Miró, Miquel Barceló, Antonio López, Manolo Hugué, Julio González e Óscar Dominguez, entre outros protagonistas que marcaram a história da escultura dos últimos 100 anos, destacando-se nas vanguardas e movimentos artísticos como o cubismo, o modernismo, o dadaísmo, o surrealismo ou o realismo. A mostra "Emoção do Espaço", uma seleção de peças da coleção da fundação espanhola Azcona, reúne obras inovadoras que "rasgaram" conceitos e derrubaram os limites da criação artística. A organização é da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais, no âmbito da programação do Bairro dos Museus. A curadoria é de María Toral.
O Universo Curvo
A natureza e a arte parecem afastar-se, mas encontram-se antes do que se pensa. Goethe
Quando falamos de escultura falamos de uma arte ambiciosa, cujo objetivo principal se foi transformando ao longo dos séculos. Debruçou-se sobre temas religiosos, monumentais, fúnebres e, em muitos casos, ligados diretamente ao poder institucional da política. Da conceção à realização do objeto escultórico, encontramos um desejo manifesto de apropriação do espaço, através de uma massa de volume fechado. Embora tenha nascido com uma vocação de eternidade, como nos demonstraram os egípcios e os gregos, a sua finalidade evoluiu ao ponto de permitir que o escultor trabalhe com uma multiplicidade de materiais, inclusivamente os efémeros.
Durante os séculos XX e XXI, a escultura passou por mais metamorfoses do que em toda a história desde o seu surgimento como arte, sendo as vanguardas e os movimentos que inundaram estes séculos as maiores causas destas mudanças. Falamos das diversas experiências que se produziram com o modernismo, o cubismo, o dadaísmo e o surrealismo, que não se limitaram a transformar o sentido da pintura, mas encontraram também na escultura um suporte perfeito para as suas reflexões. Os vanguardistas ergueram-se, assim, como revolucionários a romper com a tradição, em busca de algo novo, afastando-se do controlo da estrutura social e de uma determinada visão da arte.
Para compreender esta evolução é necessário perceber, em primeiro lugar, que a escultura adquiriu um novo significado no século XIX, ainda que de forma gradual, e que artistas como Auguste Rodin, presente na mostra, foram capazes de romper com os conceitos de estátua, dotando-os de maior independência artística. Rodin dizia: «Onde aprendi escultura? Nos bosques, observando as árvores; nos caminhos, observando a construção das nuvens; no atelier, estudando o modelo; em todo o lado, exceto nas escolas. Apliquei na minha obra o que aprendi com a natureza.»
Seguindo esta linha, os artistas que mudaram o curso da história da arte encontraram na escultura o meio de expressão por excelência. A revolução nesta disciplina foi mais lenta do que noutras manifestações, uma vez que a escultura esteve, durante séculos, diretamente ligada a materiais caros, como o mármore e o bronze. Deste modo, a introdução de novos componentes, incluindo resíduos, foi importantíssima no processo de mutação que se desenhava desde o século anterior. Se a figura de Rodin foi influente no início do século, o cubismo foi o movimento que rompeu definitivamente com a tradição dos temas e da figura humana, abrindo espaço às figuras geométricas.
Nesta seleção de obras estão presentes alguns dos artistas imprescindíveis a estas inovações, como Manolo Hugué, Pablo Gargallo e Julio González, que tinham em comum a sua morada: Paris, a capital francesa decisiva na arte. Se Gargallo demonstrou que com umas chapas de ferro se podia fazer uma escultura, González também foi inovador na utilização do ferro, modernizando a forja como técnica e incorporando o sistema de soldagem autógena. A sua produção escultórica começa com chapas cortadas e soldadas, com vínculo cubista, mas acaba por abandonar as referências figurativas, adotando a utilização da decomposição geométrica como novo estilo.
Os cubistas foram capazes de desenvolver esta linguagem dando lugar a uma estética da "ausência de massa", ainda que, em alguns casos, os temas clássicos continuassem presentes nas suas obras, algo que podemos observar em Bacante, de Pablo Gargallo, que reinterpreta uma figura da mitologia romana, consagrada ao culto do deus Baco, ou em Ondina, de Henri Laurens, que também recorre à mitologia, desta vez grega, para nos apresentar uma ninfa aquática através de um novo processo de expressão.
Outra das grandes inovações foi introduzida pelos dadaístas que, através do ready-made ou objet-trouvé, fizeram com que qualquer objeto de uso quotidiano, sem que se lhe modificasse o aspeto, pudesse transformar-se numa obra de arte. Estas peças tinham como principal objetivo gerar uma sensação de absurdo, ironia ou espanto, como se observa na obra Cadeau, de Man Ray. Trata-se de um ferro de engomar com pregos na base: o que com ele se tente engomar vai rasgar-se. O artista atribui-lhe uma intenção erótica e conta que engomou um vestido com esse ferro, tendo depois dito a uma jovem que o tinha usado enquanto dançava. Para além dessa interpretação, esta obra ajuda-nos a descobrir o que dentro de nós foge ao convencional. A escultura adquire em si um sentido próprio que quer transmitir ao espectador, e este objeto encontrado viria a representar uma forma de libertação.
Nesta mostra destaca-se também uma escultura de Max Ernst, outro dadaísta e surrealista, grande amigo de Man Ray. Com a sua obra Chéri Bibi (Querida Bibi) regressava ao formato do painel plano, que tinha sido uma característica recorrente nas suas criações desde a década de 1930. Esta peça faz referência à figura central da série de romances com o mesmo título, iniciada por Gaston Leroux em 1913 e protagonizada por um presidiário, um ex-carniceiro que é enviado para a prisão, acusado de um crime que não cometeu. Este romance está repleto de um humor mordaz, algo que captou a atenção de Ernst, que transformou um presidiário em protagonista de uma obra de arte.
A escultura como estátua acaba por cair do pedestal por si mesma, tal como desejava Baudelaire no século XIX. Até então, costumava ter como figura principal uma personagem ilustre, que personificava as grandezas políticas, militares ou artísticas. Ainda assim, o seu propósito muda radicalmente, permitindo que qualquer pessoa se torne imortal, graças ao surrealismo, como demonstra Ernst.
Também Óscar Domínguez nos mostra que nem tudo é o que nos parece à primeira vista. É por isso que a sua obra Violón nos surpreende: o que aparenta ser um instrumento musical esconde, na verdade, uma cabeça de cavalo, na qual se destaca o olho do animal, que parece convidar-nos a observar e reflectir.
Chegamos a um período pós-Segunda Guerra Mundial, no qual alguns artistas abandonam a figuração, começando a dar protagonismo à abstração. Profundas mudanças de estilo dão lugar à morte das vanguardas, que perdem a sua essência revolucionária. Criam-se, assim, novas correntes dominadas pelo visual e pelo conceptual. Nas décadas de 1950 e 1960, tudo isto se reflete na escultura, e o vanguardista transforma-se num mito cultural do passado. Esta nova corrente começa a ganhar força como tendência no mundo da arte e consolida-se em França, onde lhe chamam informalismo, um movimento paralelo ao expressionismo abstrato que surgiu nos Estados Unidos. O termo informalismo foi cunhado pelo crítico Michel Tapié, na exposição "Signifiants de l'informel", celebrada em Paris em 1951. Dentro do movimento, aglutinavam-se correntes diferentes, como a abstração lírica, a nova escola de Paris, o tachismo, o espacialismo e a Art Brut. O informalismo propõe que se prescinda da vontade formal e defende a criação segundo os critérios ditados pelo instinto. A história particular de Espanha faz com que o informalismo desenvolvido pelos criadores espanhóis tenha uma identidade especial, como demonstram Martín Chirino e Pablo Serrano, ambos membros do grupo El Paso.
Assim, a segunda metade do século XX traz-nos novas esculturas cheias de dinamismo, nas quais o vazio desempenha o papel principal. O estudo anatómico representa o movimento unido à energia. Em alguns casos, podemos inclusivamente falar de esculturas científicas, onde os estudos matemáticos e geométricos são imprescindíveis antes de se esculpir.
Estas novidades podem ser observadas nas obras de Jorge Oteiza e Eduardo Chillida, que conjugavam nas suas criações uma plástica esquemática, incorporando elementos compositivos variados.
Chegamos assim ao pós-modernismo, em que os artistas saem de um panorama artístico que lhes parecia estanque para entrarem numa era numerosas experiências multidisciplinares. Se o início do século nos deu os movimentos vanguardistas nos quais os artistas se agrupavam, o fim do século destacou-se pelo individualismo e, sobretudo, pela variedade de correntes paralelas.
Estes breves apontamentos sobre algumas das peças que se podem ver nesta mostra permitem afirmar que os escultores mantiveram, ao longo de todas as décadas, uma procura constante por novas formas de expressão, que divergem na utilização dos mais diversos materiais e que continuam, até hoje, a transformar-se, como o ferro, a madeira, o plástico, plexiglass ou as resinas. E é aqui que a teoria do campo expandido de Rosalind Krauss adquire finalmente a sua forma. Em 1978, esta crítica americana nomeava Rodin o pai da escultura moderna e atribuía-lhe, ao eliminar o pedestal e o carácter monumental, a origem do território indeterminado onde ela se veio a desenvolver. É nessa altura que a escultura perde também uma definição precisa, pelo que só é possível de compreender, segundo Krauss, de forma negativa. Isto significa que a escultura é aquilo que ocupa uma zona entre a paisagem e a arquitetura, sem que seja qualquer uma delas. Desta forma, tudo é possível no universo do campo expandido, um campo onde géneros diferentes convergem para dar espaço a novas concepções artísticas. O que é certo é que, nesta disciplina, podemos observar a maneira como o conservadorismo cedeu lugar a inovações, que conseguimos observar não apenas nas técnicas, mas também no espaço.
Em As Passagens de Paris, Walter Benjamin afirma que «o fascínio mais profundo do colecionador consiste em encerrar o objeto individual num círculo mágico, congelando-o, enquanto é atravessado por um último calafrio (o calafrio de ser adquirido). Tudo o que é recordado, pensado e sabido transforma-se em rodapé, marco, pedestal, selo da sua posse.» Graças à generosidade da Fundação Azcona, podemos entrar nesse círculo mágico, transformando-o num grande círculo aberto que nos permite conhecer a obra de alguns dos protagonistas imprescindíveis da história da escultura mais recente.
María Toral |


























